quarta-feira, 27 de julho de 2016

Os desafios do movimento estudantil Entrevista com Bruno Chancharulo



Entrevistamos Bruno Chancharulo, um jovem de 20 anos de idade militante do movimento estudantil, estudante de Direito na UNIP, um dos coordenadores do coletivo Domínio Público na Baixada Santista. 

Confira essa entrevista sobre a atual realidade e desafios do movimento estudantil em nossa região e no Brasil como um todo. 

JS - Bruno, como começou sua militância no movimento estudantil?

Bruno: Comecei a atuar no ensino médio, acabei conhecendo o coletivo Domínio Público e me identifiquei com a proposta de independência autonomia do movimento, sigo participando da construção deste coletivo até hoje.

Na explosão das jornadas de junho de 2013, quando a população saiu às ruas, vimos a necessidade de construir uma entidade estudantil capaz de realmente representar os estudantes de Mongaguá, cidade em que estudei o ensino médio. Fizemos diversas reuniões com outros grêmios e fundamos a entidade.

Foi uma ano de muitas lutas, enfrentamos a prefeitura por suas imposições autoritárias, como quando nos recebeu a base de ameaças e spray de pimenta, juntos com a guarda municipal com a milícia pessoal do prefeito.


JS- Isso no movimento secundarista, e como se deu a sua atuação no movimento universitário?

Bruno: Quando entrei na universidade particular, no curso de Direito, busquei logo me organizar coletivamente com os colegas, pois é indispensável sempre estarmos organizados. Acabamos descobrindo que o Centro Acadêmico, do curso e o Diretório Central dos Estudantes inexistiam.
A coordenação era quem promovia as eleições do CA, violando a independência e autonomia do movimento estudantil. Fiquei chocado!
Peraí, são os coordenadores da faculdade que determinam como e quando os estudantes devem se organizar!?
Diante disso exigimos eleições para o CA ao lado de outros estudantes que também se indignaram com essa situação, participei de uma chapa, disputamos o CA. Durante a campanha levamos a denúncia desta fraude armada pela direção e coordenação da universidade e apresentamos a proposta de um aprofundamento da democracia entre os estudantes.

A direção reagiu com truculência, dentro da faculdade fomos perseguidos por seguranças durante semanas, sofri tentativas e ameaças de expulsão e fui suspenso. Como se tudo isso fosse pouco, fui processado, o que prejudicou na minha vida acadêmica e pessoal. Apesar de toda intimidação, permaneci e permaneço ainda hoje firme em meus ideais, tenho a convicção de que esse é o caminho se quisermos construir uma alternativa de sociedade justa!

JS - Como você avalia o movimento estudantil nacional, organizado nas Uniões Estaduais dos Estudantes (UEEs) e na União Nacional dos Estudantes (UNE)?

Bruno: Essas entidades já tiveram uma história de lutas no passado, ajudaram a juventude e a classe trabalhadora na conquista de direitos e foram fundamentais, por exemplo, na luta contra a ditadura militar.

Mas infelizmente nos dias atuais essas entidades estão aparelhadas e engessadas, por grupos do movimento estudantil (ME) que possuem muitos vícios políticos e aplicam práticas condenáveis. Nos congressos da UNE o que encontramos é uma disputa mesquinha do “poder pelo poder”. Assistimos organizações que deveriam ser independentes como a UJS, tornarem-se defensoras dos governos petista, por exemplo.

Aliás a UJS, (grupo da juventude do PC do B) é o maior exemplo de antidemocracia nas entidades estudantis. Para se manterem no controle de instituições como a UNE e UEEs a UJS burocratiza e despolitiza esses espaços e fazem com que as entidades que deveriam sobretudo defender os estudantes, não o façam.

Nossa reação contra esse tipo de prática foi compor com a união de vários coletivos chamamos de Bloco da Oposição de Esquerda nas entidades. O bloco é imprescindível para lutarmos contra a política mercantilizadora da UJS.

No último Congresso da UNE, em 2015, estivemos em Goiânia e percebemos a degeneração dos quadros do PT, PC do B assim como o crescimento de nossa oposição, colocando as entidades estudantis, como CAs e DCEs em seu devido papel, que é ao lado da juventude!



JS - Como surgiu o Domínio Público e qual a proposta deste coletivo?

O Domínio Público, é um coletivo que possuí 10 anos de existência e surgiu da necessidade de fazer a luta estudantil com independência haja visto a aparelhamento e burocratização da UNE e das UEEs. Por isso, fazemos luta muito mais fora do que dentro das instituições. Para isso contamos com apoio de outros movimentos estudantis de esquerda.

Estamos presentes em diversas cidades do Estado de São Paulo, construindo mobilizações, debates, intervenções sociais nos mais diversos espaços. Temos pautas: defendemos o passe livre, universidade gratuita e universal, qualidade de moradias estudantis, e a real emancipação irrestrita da juventude diante de todo o conhecimento produzido pela humanidade. Mas sempre que possível atuamos também com outros segmentos da sociedade.

Nos posicionamos contra o interesses dos poderosos que representam a velha política brasileira, mostrando que é a juventude que construirá o novo! De forma coletiva, independente e democrática!

JS- E a situação do movimento no estado de SP, com as ocupações das escolas?

O PSDB, governa São Paulo por quase trinta anos. Durante décadas, o neoliberalismo foi presente na vida da classe trabalhadora e juventude, com precarização das Universidades Estaduais e escolas públicas.

O Governador Alckmin quis e ainda quer enxugar as contas da Educação, para isso de forma totalmente antidemocrático impôs no ano passado a chamada da “Reorganização do Ensino”, que na verdade um projeto de fechar escolas e precarizar os ensinos.

Os secundaristas demonstraram que não abriria mão de suas escolas e que lutaria o necessário para não acontecer, radicalizaram a luta saindo das ruas para a ocupação das escolas. O movimento tomou força tão impressionante que se proliferou para outros Estados do país, como o Rio de Janeiro, Goiás e outros. Em São Paulo os estudantes obtiveram uma vitória histórica, a luta desses secundaristas precisa continuar!



JS- Como é o movimento estudantil aqui na Baixada Santista?

Durante as ocupações do ano passado o movimento estudantil teve um papel importante. Em Santos, Guarujá e São vicente, no pico das ocupações em SP, a baixada teve 3 ocupações de escolas referentes ao projeto de reorganização. Diversos setores e grupos sociais também contribuíram ativamente.

Santos possuí a mais antiga entidade estudantil do Brasil, o Centro estudantil de Santos (CES), mas infelizmente a direção encontra-se distante dos estudantes. Atualmente o CES pouco faz, para ajudar o restante da juventude a se organizar, a brigar pelos seus direitos. Mas por outro lado são muito eficiente quando se trata de manter o status quo e a manutenção de suas burocracias.

Um exemplo disso, é a Carina Vitral ser candidata a prefeitura em santos. A chapa na qual ela faz parte tenta passar uma imagem que ela representa a juventude, por ser presidente da UNE porém tampouco representa a angustia e anseios de nossa juventude tão precária, a política que ela representa é das oligarquias, empresariais e coligações com setores mais repugnantes da região.

JS- Quais os próximos passos da luta estudantil na visão do Domínio Público?

Queremos estar presentes em todos os espaços de juventude, catalisar a indignação e lutar contra os poderosos que controlam a politica, a mídia e o estado. Construir a luta na região é nosso central objetivo, seja colaborando na formação grêmios, Centros Acadêmicos, Diretórios críticos e atuantes.

E buscamos também resgatar as entidades estudantis para a independência estudantil sempre seguros de que só a luta muda a vida!