segunda-feira, 18 de julho de 2016

Santos, melhor cidade para se viver... mas para quem mesmo?


Em Dezembro do ano passado foi divulgado pela empresa de consultoria econômica Delta Economics e Finance o ranking das cem melhores cidades brasileiras para se viver. Segundo a empresa, Santos ocupa a primeira colocação na lista, sendo, portanto, a melhor cidade brasileira.

Mas quem mora em Santos, embora reconheça suas qualidades, sabe que vivemos numa cidade que aprofunda seus contrastes.

Ignorar a especulação imobiliária, os problemas ambientais, de mobilidade urbana e nos serviços públicos, alguns em colapso como o sistema de saúde, e tentar vender a ideia simplista de “melhor cidade” é querer negar a desigualdade social e os diversos problemas, além de mascarar como isso se distribui no espaço urbano.

Temos uma ou várias Santos? Os morros e a Zona Noroeste compartilham do desse status? E a grande parcela da população que sofre com a falta de políticas de ordenamento territorial, mobilidade e saneamento, como no Dique da Vila Gilda, maior favela sobre palafitas da América Latina, a infraestrutura é precária e os moradores estão sujeitos às tempestades e as oscilações das marés, onde muitas vezes são surpreendidos pelas inundações e corrosão das fundações.

Dique da Vila Gilda - Em 2007, 6 mil famílias viviam no local (COHAB)

Por isso perguntamos, melhor para quem mesmo? A mídia explora esse rótulo fazendo a propaganda necessária para atrair o olhar das grandes empresas e apagar a desigualdade, que está profundamente associada ao processo de mercantilização da cidade que se expressa fortemente na especulação imobiliária. Santos possuí desigualdades tão grandes, claramente visíveis na divisão da ocupação do espaço urbano: existe uma intensa dinâmica imobiliária que favorece o processo de valorização das regiões próximas a orla da praia.

Essa “elitização” dificulta o acesso dos mais pobres a essas regiões, inclusive para o lazer. Forçados pela crise do SUS, indissociavelmente ligada ao processo de mercantilização da saúde, muitos santistas são clientes de algum plano de saúde privado, e neles também encontram dificuldades, pois a lógica do mercado é vender mais e não ter a melhor qualidade.

O sistema de saúde brasileiro é refém de empresas, que financiam campanhas de prefeitos e vereadores criando o ciclo vicioso que destrói o SUS para vender planos de saúde.

O transporte coletivo metropolitano e municipal é gerador de lucro para empresas particulares e, apesar de precário, é caríssimo (R$ 3,25). Isso sem falar que os motoristas de ônibus são obrigados a exercer uma dupla função, atuando também como cobradores.

E as pessoas das demais cidades da baixada que trabalham e constroem Santos tem situação ainda mais grave, pois o transporte metropolitano é caótico e a implantação do VLT beneficia poucos e faz parte da mesma lógica de mercado que os serviços públicos.

O processo de crescimento do porto de Santos ocorre sem grandes preocupações com o risco ambiental, a saúde dos ecossistemas litorâneos e dos moradores e moradoras da região. Vide as recentes catástrofes como a explosão do tanque da Ultracargo no ano passado e o vazamento do gás tóxico na Localfrio em Janeiro desse ano.

Vazamento de produto químico no porto

Muitos adoeceram pela inalação do gás tóxico. Estes são eventos na história recente da cidade, que revelou para todos quão vulnerável somos e quão equivocado é nosso modelo de crescimento e fiscalização. São apenas algumas reflexões com o intuito de desmistificar rotulações que possuem objetivo comercial e não compromisso com a realidade, pois há muitos fatores a considerar para dizer se algo é ou não bom.

Escrito por: Héric Moura (Graduando em Ciências do Mar pela Unifesp) e Darlene Regina (advogada)