segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Pagu, e a conveniência do esquecimento


*por Carla Clemente


Logo ao cruzar o portão de entrada do cemitério da Filosofia em Santos/SP, se vê uma placa indicando os túmulos dos "notáveis", curiosamente não se vê nada de Pagu.

Placa com localização dos túmulos dos notáveis 
Nada no cemitério indica que Pagu está lá sepultada e, dificilmente alguém encontrará seu túmulo sem a referência de quem que já passou por ali.

Pagu é uma mulher de importância ímpar na história do Brasil e do feminismo, deixando marcas, tanto pela sua produção literária quanto pela sua luta e coragem.

Foi a primeira presa política no Brasil, por participar da organização da greve dos estivadores em Santos em 1931, também foi a primeira escritora de romance proletário da literatura brasileira (Parque Industrial, Edição Particular-1933).

Sua trajetória como trabalhadora, feminista, diretora de teatro, militante partidária comunista, jornalista, entre diversas outras atividades, deixaram um grande legado de reconhecimento internacional.

Foto do túmulo de Pagu no Cemitério da Filosofia
Numa época, ainda mais conservadora que hoje, onde o espaço para a mulher, forçosamente, se limitava a vida privada, e a conduta moral era ditada em níveis de extrema repressão pela cultura conservadora; Pagu rompe com essas amarras opressoras numa luta de resistência e ousadia, quebrando os padrões impostos.


Pagu foi a expressão viva da indignação, do feminismo e da rebeldia, em defesa da igualdade. Desbravou os mais tortuosos caminhos, superando paradigmas de gênero e de classe, se tornando uma figura púbica imprescindível para a nossa história.

Nossa cultura é marcada pelo culto das personalidades históricas, símbolos do status quo, de uma sociedade patriarcal, assim não é surpresa que a figura de Pagu, seja remetida convenientemente ao esquecimento.

Poucos sabem, mas alguns de seus escritos e fotos, foram encontrados no lixo, por uma catadora de papel, em São Paulo.

Vista a distancia do túmulo de Pagu
Em Santos temos o Centro de Cultura Patricia Galvão, onde fica o Teatro Municipal Brás Cubas, a construção deste teatro foi fruto de sua luta em vida. Também havia uma praça na avenida Martins Fortes, com seu nome, inaugurada em 26 de janeiro de 1963; que foi destruída, não restando sinais de que ali era a praça Patricia Galvão.

O fato de existir um centro de cultura com seu nome, não significa o devido reconhecimento de sua importância histórica que segue praticamente esquecida.

Pagu transpôs sua individualidade por seus ideais, sendo um exemplo histórico que traz com sua memória, a continuidade de um sonho, que certamente até hoje, escandaliza e incomoda os padrões dominantes, devido ao seu espírito revolucionário e feminista.

"Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre" Pagu



* Carla Clemente é Professora de Filosofia e militante do Coletivo Feminista Rosa Lilás.