segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Daniel Blake e porque precisamos da obra de Ken Loach


por Valério Paiva*

Aos 80 anos de idade, Ken Loach poderia estar desfrutando de uma aposentadoria, mas talvez o desmonte do sistema de seguridade social britânico o impediriam de ter tranquilidade na velhice. Essa premissa é apenas uma hipótese se o cineasta de Warwickshire não continuasse trabalhando. E seu trabalho jamais deve servir para justificar os defensores do fim do Estado de bem-estar social na Grã-Bretanha, afinal Ken Loach não precisa de seus filmes para sobreviver. Mas talvez nós precisássemos de sua produção para pensar na hipocrisia de nossa sociedade.

Seu ultimo trabalho, “Eu, Daniel Blake”, é um soco no estômago necessário para muitos de nós passassem a perceber como o capitalismo e seus defensores tratam a população que mais precisa da assistência social que o Estado passou a administrar após mais de um século de lutas dos trabalhadores para conquistar direitos. E está sendo desmontado desde a década de 80 no Reino Unido com a ascensão do governo conservador de Margaret Thatcher, e depois mantida com os trabalhistas.

Daniel Blake, o protagonista, representa não apenas o trabalhador britânico que é vitima do desmonte do aparato estatal montado no pós-guerra. Ele pode ser visto nas ruas do Brasil na sobra da reforma da previdência que o desgoverno de Michel Temer está impondo á população. Acaba sendo uma continuação do processo iniciado em 2003 na reforma previdenciária do governo de Lula, e ambas seguem as premissas da tentativa de FHC que foi barrada em 1998. Saímos do cinema lembrando que Michel Temer é a continuação de todos os governantes que querem transformar todos nós em novos Daniel Blakes.

Todo esse processo joga nas costas do trabalhador a má administração de recursos públicos e a necessidade de garantir condições ultra favoráveis para que os empresários brasileiros garantam o seu lucro. E diferente dos países europeus, o caso brasileiro fica mais macabro ao lembrarmos a universalização dos benefícios da previdência a todos os trabalhadores só foi garantida na Constituição de 1988. Daniel Blake não é vitima de uma mera burocracia, e sim de todo o sistema perverso envolvido no desmonte dos direitos sociais. E como quase toda a obra de Ken Loach, é uma situação universal que dialoga com todos os trabalhadores do mundo.

Ken Loach hoje é sinônimo de cinema político, e talvez “Eu, Daniel Blake” possa ser num futuro próximo considerado sua obra prima. O que é difícil discutir se lembrarmos de que sua obra inclui fantásticas películas que entram em vespeiros extremamente delicados envolvendo o proletariado, como o trabalho das mulheres imigrantes terceirizadas nos Estados Unidos (“Pão e Rosas”), o avanço do fascismo aliado a traição do stalinismo na Guerra Civil Espanhola (“Terra e Liberdade”), ou mesmo a aflição que a sociedade contemporânea trazem aos trabalhadores que acabam conseguindo forças junto aos amigos e na crença em seus ídolos ("À Procura de Eric", que recentemente foi vilipendiado no Brasil por uma comédia obscura onde substitui Éric Cantona por Sidney Magal !!!).

E por isso que Ken Loach é importante para nós. Precisamos mais de seus filmes do que ele deles para sobreviver. Continua corajoso de não fugir de se assumir como um cineasta político a ponto de preparar um spot promocional onde frases do personagem protagonizado pelo comediante Dave Johns são declamadas por pessoas comuns, entre eles Jeremy Corbyn.

Nós somos Daniel Blake.
Nós somos Ken Loach

* Valério Paiva é repórter do Jornal da UNICAMP. 

Assista o Trailer e veja locais de exibição: