sábado, 8 de abril de 2017

Como transformar um caso de violência num case de sucesso, ou porque devemos falar sobre assédio e violência dentro das empresas de comunicação


Para quem não conhecia ou nunca teve oportunidade de acompanhar, o modo como o Grupo Globo está tratando o lamentável e nojento episódio de assédio sexual envolvendo o ator José Mayer contra a figurinista Susllem Tonani é um típico caso de gerenciamento de crise extremamente profissional.
Do ponto de vista da empresa, mais importante do que investigar, punir o responsável e coibir práticas de assédio sexual, moral e outras formas de violência e opressão existentes no ambiente de trabalho, a preocupação primordial do Grupo Globo é com a preservação de sua reputação e não com a segurança e sofrimento das vítimas.
Para essas organizações envolvidas no gerenciamento de crise, o crime contra uma mulher é chamado burocraticamente de 'adversidade', e para superar essa situação e salvar a imagem institucional, ações devem ser tomadas e usadas como forma de marketing propositivo em favor da organização. É emblemático que o corajoso protesto interno das funcionárias, em vez de ser reprimido ou silenciado, foi aceito e depois incentivado pelas chefias, liga-se a um episódio bem específico que gerou grande repercussão externa, já incontrolável, por conta da fama e posição do agressor. Não fosse isto, ou se o agressor fosse um funcionário do baixo clero da empresa, provavelmente a situação seguiria o rito usual dá invisibilidade, e as funcionarias seriam relegadas ao silenciamento.
Para o Grupo Globo o importante é o marketing social e os dividendos que podem ser colhidos. O restante é perfumaria. Se um executivo (ou nesse caso, um ator) tiver que ser responsabilizado pela 'adversidade' e punido, é um sacrifício necessário para preservar o conjunto da organização, demais executivos e seus acionistas. Não duvidem que a carta com a autocritica de José Mayer tenha sido escrita junto com membros do comitê gestor de crise.
Se o ator José Mayer será demitido ou mantido na geladeira por anos, vai depender do quanto a poeira foi jogada para debaixo do tapete pela empresa.
Do nosso ponto de vista, trabalhadores em comunicação que lutamos contra toda forma de opressão, a discussão não deve ser a mesma. Antes de qualquer apoio ao marketing social que beneficiará uma empresa, temos que estar do lado de quem sofre assédio moral. Milhares de pessoas são vitimas desse mal diariamente, sejam nas empresas de comunicação ou qualquer outro ramo. Seja no serviço público ou na iniciativa privada. E quase todos são invisíveis. Muitas vezes somos forçados a sermos silenciados e não levarmos qualquer denúncia para frente.
Por isso a denuncia de Susllem Tonani foi corajosa. A organização das funcionárias dentro da empresa, organizando o protesto com as camisetas "Mexeu com uma, mexeu com todas" foi fundamental. E quando a Folha de S.Paulo apagou o texto com a denúncia de forma absurda, os questionamentos dos leitores e o compartilhamento por outros canais do texto original ajudaram a expor a hipocrisia e uma possível tentativa de abafar o caso.
E nesse caso especifico, uma discussão fundamental que devemos fazer é a culpa do próprio Grupo Globo ao incentivar a criação de personagens (e atores) viris e sedutores em suas produções. Personagens que subjugam as mulheres. Homens mais velhos que seduzem mulheres mais jovens, mas nunca o contrário. E ainda por cima existem outras formas de machismo e preconceito na dramaturgia, nas artes e na comunicação social que devem ser discutidas.
José Mayer é protagonista, mas a responsabilidade é do grupo Globo, que perpetuam e abafam essas práticas não só na dramaturgia, mas inclusive nos famigerados testes de sofá que sabemos que existem.
Precisamos lutar cada vez mais contra todas as formas de opressão dentro e fora das empresas de comunicação. E não cair na ladainha do marketing social e gerenciamento de crise para salvar imagens de empresas em vez de cuidar dos trabalhadores vítimas de violência no trabalho.
E vamos vencer.


*Valério Paiva é jornalista e colaborador do Jornal Santista